Populações costeiras orientais são as mais afetadas pelo El Niño em Timor-Leste

As populações das zonas costeiras dos distritos timorenses de Lautem e Viqueque são atualmente as mais afetadas pelo impacto do fenómeno do El Niño em Timor-Leste, com risco elevado de falta de alimentos, segundo um relatório.


EPA@ António Amaral

 

O último relatório da organização Seeds of Life, que tem vindo a monitorizar o impacto do fenómeno El Niño, refere que estas regiões estão numa situação de emergência e "requerem assistência imediata".

 

Paralelamente o estudo recomenda monitorização da ilha de Ataúro e do enclave de Oecusse, especialmente nas suas zonas costeiras, devido a menores colheitas.

 

O El Niño é o nome dado a um padrão climático associado a um longo período de aquecimento no Pacífico tropical central e oriental.

 

Os fenómenos El Niño são alterações de entre 12 e 18 meses na distribuição da temperatura da superfície da água do Oceano Pacífico, que têm efeitos na meteorologia da região.

 

Especialistas referem que o fenómeno deste ano - um dos três maiores já registados - começou em maio do ano passado, com uma intensidade entre "moderada e forte", e deverá prolongar-se pela primeira metade de 2016.

 

No caso de Timor-Leste o fenómeno adiou o começou da estação das chuvas, que está quase a terminar, causando dificuldades a muitos dos agricultores do país, especialmente nas culturas de arroz e milho e problemas alimentares para muitas famílias.

 

O último relatório conjunto das organizações Care, Caritas, Oxfam, PLAN e World Vision, nota, por exemplo, que 62% dos inquiridos reportaram chuvas abaixo da média, com 26% a terem que mudar a sua fonte primária e dois terços a recorrerem a fontes de água não protegida (rio ou lagoa).

 

Cerca de 70% dizem não ter água para as suas culturas e 44% explica estar com uma dieta ainda mais restrita do que o normal, com mais de metade a referir uma redução no número de refeições.

 

Se nas culturas do arroz e do milho a falta de chuva foi e é um problema em alguns locais, as chuvas mais intensas que se têm feito sentir em algumas das principais zonas montanhosas agrícolas, são um problema para a produção de verduras e legumes, com muitos agricultores a relatarem cheias e a destruição da sua produção.

 

Peter Dougan é o responsável da empresa FarmPro que trabalha com cerca de 60 agricultores das zonas de Ermera e Bobonaro, fornecendo verduras e legumes aos principais supermercados, hotéis e restaurantes de Díli, duas vezes por semana.

 

Anualmente, por esta altura, explica, é comum que se verifiquem algumas carências de verduras, com as chuvas intensas a danificarem e a reduzirem produção de brócolos, couve chinesa (bok choi), couve-flor, alface ou tomate.

 

Uma situação "normal" mas que, insiste, pode começar a ser corrigida com estratégias para lidar com a época das chuvas, nomeadamente produções cobertas que começam a ser feitas em alguns pontos do país mas são ainda insuficientes para o mercado.

 

"Os produtores de verduras debatem-se sempre por esta altura com demasiada chuva. Inundações ou lama que destrói as produções. Algumas das que crescem são depois atingidas por insetos ou doenças", explicou à Lusa.

 

"Produtos que gostam de chuva, como a beringela ou o kancun (variedade local de espinafre), dão-se bem, mas os outros têm grandes dificuldades", explicou.

 

Isso nota-se já nos supermercados de Díli onde o aumento dos consumidores e a menor oferta deixou as prateleiras de verduras e legumes de vários completamente vazias.

 

Num deles, visitado hoje pela Lusa, só havia à venda couve roxa e abóbora. "É preciso desenvolver novas estratégias para lidar com a época das chuvas que é um fenómeno anual", disse Peter Dougan.

 

com Lusa

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