Movimento Tasi Moos - Os nossos Oceanos e o nosso futuro

8 de Junho é designado pelas Nações Unidas o Dia Mundial dos Oceanos, dia oficial de celebração, para lembrar a sua importância na vida do planeta e como podemos protegê-lo.

 

Os oceanos ocupam dois terços da superfície da Terra e por meio da interação com a atmosfera, litosfera e biosfera, têm um papel importante nas condições climatéricas do planeta. Por outro lado, os oceanos não são apenas o habitat de um vasto número de plantas e animais, mas também fornecem comida, energia, oxigénio e múltiplos recursos aos seres humanos.

 

SAPO Timor-Leste teve uma oportunidade de entrevistar o fundador do Movimento Tasi Moos, Gally Soares Araújo, para falar sobre o movimento, a educação ambiental em Timor-Leste e também sobre as alterações climáticas.

 

 

SAPO TL:  Como nasceu o movimento?

Gally Soares Araújo: O Movimento Tasi Mos nasceu no dia 16 de Junho de 2015 através de uma iniciativa minha nas redes sociais para iniciar uma atividade de limpeza voluntária na praia de Dolok Oan, em Dili, Timor-Leste. Nesse dia, surgiram cerca de 20 pessoas, metade das quais com quem nunca tinha estabelecido qualquer contacto anteriormente. Limpámos uma boa parte da praia e, como éramos poucos, continuamos na semana seguinte. Significou muito para nós e desde logo sabíamos que existiam mais pessoas como nós em Timor-Leste e começámos a envolver mais pessoas e entidades públicas e privadas.

SAPO TL: Qual é o objectivo do movimento?

 

Gally Soares Araújo: O objetivo é sensibilizar a população em geral sobre as questões ambientais e os seus impactos diretos no ser humano a curto, médio e longo prazo. Trata-se de criar novas perspetivas sobre o lixo no seu todo, tentar saber mais sobre o tipo de lixo existente no nosso país e as suas origens, e obviamente, a importância da gestão de recursos naturais, bem como o seu impacto no desenvolvimento de um turismo mais realista e sustentável para Timor-Leste – e, por último, as oportunidades de negócio que existem relacionados com o lixo.

SAPO TL: O projecto do movimento envolve todos os municípios timorenses?

 

Gally Soares Araújo: Com as limitações existentes, o Movimento já efetuou algumas atividades pontuais em alguns municípios onde se encontram alguns dos pontos turísticos mais importantes do país, como o Monte Ramelau, o Ilhéu de Jaco, a Ilha de Ataúro, entre outros locais. Pretendemos alargar as nossas atividades aos restantes Municípios e envolver entidades governamentais e escolas, não só nas actividades de limpeza das praias mas também criar um maior dinamismo, sustentando as atividades de uma forma duradoura e com consciência ambiental.

SAPO TL: Pretende também sensibilizar os timorenses sobre as questões relacionadas com as alterações climáticas? E, na sua opinião, acha que os timorenses percebem estas questões?

 

Gally Soares Araújo: Sensibilizar as camadas jovens timorenses é o nosso foco, daí acharmos pertinente a inclusão de crianças e jovens estudantes nas nossas atividades. É mais fácil atingirmos os pais através dos seus filhos, e as crianças são o nosso futuro.


SAPO TL: Além das alterações climáticas, acha que os timorenses entendem o significado de Educação Ambiental?

 

Gally Soares Araújo: A questão ambiental é um assunto recente na história da humanidade, existem muitas nações desenvolvidas que por muitos anos exploraram sem olhar a meios os recursos naturais existentes no planeta, ignorando os efeitos que poderiam provocar, como assistimos atualmente. O povo timorense é um povo que se adapta facilmente às mudanças, como podemos olhar um pouco para a história do país.

 

O povo é jovem, com sede de aprender e de criar novos horizontes. Esta fase é a mais importante para incutir novos conhecimentos a todos os níveis e a questão ambiental não é exceção, mas sim uma tendência global, uma realidade. Por exemplo, em Bali desenvolveu-se muito o turismo de uma forma não planeada e que atualmente resulta em danos graves a nível ambiental, Timor-Leste tem a grande oportunidade de aprender com o erro do vizinho e não cair no mesmo abismo. Com recentes atribuições internacionais para as águas de Timor como tendo a maior biodiversidade marinha do mundo, é um peso que o nosso Governo deve ter em conta para melhor cuidar das riquezas naturais no país.

 

Em suma, acredito que ainda estamos a tempo de fazer mudanças para melhor e nós estaremos aqui a contribuir com o que podemos para o futuro dos nossos netos.

 


SAPO TL: Os projectos do movimento têm apoio da parte do governo timorense?

 

Gally Soares Araújo: As atividades do Movimento Tasi Moos são integralmente voluntários por parte dos membros e das entidades que nós envolvemos. O Governo tem-nos dado especial atenção, não nos tem ignorado e temos tido uma boa relação no que toca a atividades de limpeza das praias e participações em seminários e workshops. Esperamos ter uma relação saudável com qualquer Governo, pois o Estado é quem gere a nação e a imparcialidade é fundamental para conseguirmos um objetivo comum para o povo e nação.

SAPO TL: O movimento detecta muitos problemas ao nível do ambiente em Timor-Leste?

 

Gally Soares Araújo: Ainda existem problemas graves, mas que poderão ser resolvidos se houver vontade e seriedade de quem toma decisões. Necessitamos de uma gestão mais eficiente de resíduos sólidos e líquidos, necessitamos de um centro de reciclagem adaptado às novas tecnologias, onde o lixo é transformado em energia, entre outros.

 

Necessitamos de mais sensibilização nas escolas, em casa, nos media, necessitamos que o Governo tome medidas mais drásticas junto das entidades que mais prejudicam o ambiente, necessitamos de criar acordos bilaterais com a Indonésia para exportar todo o plástico, e não só, que chega em contentores a Timor-Leste vindos da Indonésia diariamente, necessitamos de criar políticas claras, bem como seriedade na sua implementação para seguirmos uma só linha de desenvolvimento e acima de tudo necessitamos de muita paciência, pois como foi referido anteriormente é uma questão mental quando se olha para a questão ambiental. Neste sentido, os resultados não são imediatos.

SAPO TL: Recentemente, tivemos a polémica da captura de tubarões nas águas timorenses pelos navios chineses. O que pensa sobre este assunto?

 

Gally Soares Araújo: Como já foi referido anteriormente nos meios de comunicação social, é um assunto sério e grave que o Governo deveria ter optado por tomar uma decisão mais drástica com a companhia chinesa. No mínimo, terminar com o contrato existente e aplicar coimas pesadas.

 

Muitas empresas locais quando executam um projeto público de pequena dimensão e não cumpre os regulamentos estabelecidos pelo Governo são severamente punidas, resultando até em listas negras, e os danos a que assistimos são incomparáveis. Enquanto sociedade civil, queremos ver um Timor-Leste melhor para todos os que habitam neste país, e depositamos toda a nossa confiança nos nossos líderes para nos guiar para um futuro melhor.

 


SAPO TL: Como fundador do movimento, quer deixar uma mensagem que motive a participação dos timorenses em prol do ambiente?

 

Gally Soares Araújo: Como fundador do Movimento, alegra-me ver até onde chegámos e ver que valeu a pena iniciar algo que acreditamos ser sustentável para o país. Demonstra que sendo voluntários podemos fazer mudanças, podemos criar novas formas de pensar entre uma comunidade, e podemos envolver todas as pessoas a todos os níveis para uma só causa.

 

Deixo apenas uma mensagem aos mais novos: ainda temos muito para fazer, temos uma missão enorme pela frente. Os nossos conhecimentos adquiridos não serão suficientes se não houver humildade de reaprender com os mais velhos para entendermos de onde viemos e para onde iremos.

 

Existem atualmente muitas tentações em destruir a Nação, é fácil deixar-se corromper mas o mais importante não é o que se adquire no instante, mas sim o que se pode adquirir a longo prazo. É importante estarmos todos juntos no desenvolvimento da nação.

 

SAPO TL: O Movimento Tasi Moos vai fazer alguma actividade para celebrar o seu segundo aniversário?

 

Gally Soares Araújo: Iremos celebrar o nosso segundo aniversário na próxima sexta-feira, dia 23 de junho, e pensamos em voltar aonde iniciamos há dois anos atrás, na Praia de Dolok Oan, e contamos com a presença de muitas crianças, jovens, entidades públicas, embaixadas e empresas privadas em Timor-Leste.

 

@(Ivonia Kehik) SAPO Timor-Leste

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